José Carlos de Moura Andrade, o Zequinha - Divulgação

Fui informado que nosso querido Zequinha morreu. Penso que ao chegar em Macaé, meus olhos irão atestar a sua falta, mas a alma profunda não, pois é difícil, ou melhor, quase impossível, não conservar a memória de Zequinha. Frequentar Zequinha, eu dizia sempre para alguns de meus amigos, era uma felicidade recôndita tal como, a felicidade de uma criança que recebe um presente em noite de natal, algo indescritível. Em um mundo tão árido, tão dessacralizado, como ocorre em nossos dias, Zequinha outorgava em nossa realidade, gratuitamente, uma dose de criatividade, alegria e felicidade, pois, suas palavras eram sempre um hino de saudação à vida. Com sua morte, concomitantemente, desaparece um pouco da alma e da origem poética de nossa Macaé. De uma Macaé permeada por uma nostalgia de suas ruas entediadas pelo ocaso, ornamentadas pelos entardeceres, libertas de incomodas turbas e agitações, que tão bem Zequinha recordava e sabia descrever, pormenorizadamente. Esta perda, foi como perder um pouco das flores e dos perfumes de nossa antiga Rua da Praia. Assim como algumas pessoas nos levam a realidade cruel do dia a dia, Zequinha nos levava aos sonhos, rememorava as belezas de uma cidade que não existe mais, e que faz parte de nossa transparente nostalgia. Com uma memória afetiva viva recordava os nomes de antigos amigos que partiram. Recordava velhas ruas dos bairros, as casas com cisternas e sem muros em que as mãos das pessoas se enlaçavam e os corações que se encontravam. Conseguia, numa conversa falar, ao mesmo tempo, de Deus, do amor, da amizade, da alma de nossa Macaé antiga, e fechava, brilhantemente, o assunto, com uma daquelas piadas em que misturava realidade e ficção, que só ele sabia criar. Nessa modernidade em que as pessoas, mesmo antes da pandemia, pouco se falavam, pouco se abraçam, pouco se amavam, fica a imagem de um ser humano que seduzia pelas palavras, e pelas situações afetuosas com que as criava. Com a sua morte a realidade macaense fica mais pobre, pois, faltará alguém para falar com tanta paixão em favor da memória de nossa cidade que, como poucos, soube amar.  Zequinha, o ser das belas imagens de uma Macaé que já não existe mais e que, se confunde com nossa saudade. Certo dia, quando estávamos na padaria tomando nosso café, Zequinha levantou e se despediu. Eu lhe disse, espera aí que vou até a esquina com você, pois vou a banca comprar um jornal. Saímos da padaria e conversa vai conversa vem, e Zequinha não adentrou a Júlio Olivier onde mora, indo até a banca de jornal comigo. Na volta passamos na calçada em frente ao Costa Mil. Zequinha deu uma daquelas suas paradas, entonou a voz, e se dirigiu ao açougueiro do qual não me recordo o nome, e perguntando da calçada onde estávamos: Fulano tem Friboi aí. O açougueiro respondeu: tem sim seu Zequinha. Zequinha redarguiu, então deixa, pois em quero Frivaca. O açougueiro riu, caixas riram e os que estavam próximo também, enfim, todos rimos. Fica uma profunda saudade da imagem de alguém que se pode denominar de educado, civilizado, respeitoso, e que fez da vida um culto a alegria, a amizade, e à recordação da memória de muitos macaenses que se foram, a que ele sabia se referir nominal e afetuosamente. Feliz daqueles que, como Zequinha, consegue manter uma certa candidez diante de seu percurso pela vida que, em certos momentos nos surge como profundamente dolorida, e, até certo ponto trágica. A erosão do tempo é cruel com nossa memória, termino essa modesta homenagem à memória de Zequinha, com um texto, se não me engano, de Carlos Drumond quando da morte de seu amigo Manuel Bandeira e que, ao chegar a porta do céu Deus lhe disse: pode entrar poeta, você não precisa pedir licença.

Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2020

Por: Ronaldo Tanus Madeira

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