Cadastre-se e receba nossas novidades:

Notícias

Diretor do Nupem alerta: “Não se pode tolerar degradação ambiental em nome do petróleo”

Em 27/09/2011 às 12h04


Versão para impressão
Enviar por e-mail
RSS
Diminui o tamanho da fonte Aumenta o tamanho da fonte

Professor Francisco Esteves apresentou alerta sobr Professor Francisco Esteves apresentou alerta sobr
Na véspera de lançar no IFF de Campos dos Goytacazes (dia 23) a obra “Do Índio Goitacá à Economia do Petróleo: Uma Viagem pela História e Ecologia da Maior Restinga Protegida do Brasil”, o biólogo e diretor do Núcleo em Ecologia e Desenvolvimento Socioambiental de Macaé (Nupem/UFRJ), professor Francisco de Assis Esteves, em entrevista exclusiva, alertou que a sociedade norte-fluminense tem uma missão inadiável: conciliar desenvolvimento econômico com a preservação de seus ecossistemas. 

“Tolerar toda a degradação ambiental em nome do petróleo é um equívoco inaceitável neste novo século”, afirmou Esteves, apontando para o grande paradoxo regional: “Estamos no auge da maior das economias já vivenciadas, com abundância de recursos financeiros e de conhecimentos científicos, ao mesmo tempo em que assistimos a uma avalanche de destruição ambiental”.

Ocupação indevida

Profundo conhecedor dos ecossistemas de Macaé e região, Francisco Esteves aponta suas críticas para o processo de ocupação urbana na área de expansão do Rio Macaé, inclusive na Linha Azul, que sofreu seriamente as conseqüências das enchentes de 1998: “Desde a época em que Macaé era ocupada pela tribo dos goytacazes, a referida área era uma grande planície inundável entre os meses de novembro e março. Nos tempos atuais, há décadas que o transbordamento vem sendo crescente e, por conta das mudanças climáticas, a tendência é ter temporadas de verão com volume cada vez maior de chuvas”.

O biólogo argumenta que se as margens e os brejos estivessem protegidos, continuariam a funcionar como esponjas, cedendo lentamente o volume das chuvas para o lençol freático. “À medida que aumenta a pluviosidade e os brejos estão sendo ocupados por empreendimentos diversos, a água vai para locais de maior declive, ou seja, esse processo de ocupação das margens do Rio Macaé é a construção dos futuros grandes alagamentos na cidade”, vaticina.

O diretor do Nupem/UFRJ lamenta que Macaé vem sendo desfigurada na sua paisagem desde que passou a ser base terrestre das atividades offshore na Bacia de Campos, a partir do final da década de 1970. “Áreas mais elevadas estão sendo desmontadas e transportadas para as áreas mais baixas. Macaé não está tendo a devida atenção com o uso de seus espaços e, com isso, está comprometendo de maneira muito séria o seu futuro. A reversão desse tipo de impacto é inviável do ponto de vista econômico”.

Desafios

Coerente com os conceitos de seu novo livro, Esteves recorre aos índios goytacazes, que moldaram seu modo de vida à paisagem, e não o contrário, como acontece hoje. “Eles não aterravam as lagoas para fazer suas ocas; pelo contrário, como exímios nadadores que eram e sabendo da pouca habilidade dos inimigos tamoios dentro da água, construíam as ocas na parte mais acessível das lagoas, conservando o espelho d´água e evitando o assédio dos rivais”.

Para o biólogo, a sociedade macaense deve mudar sua postura para garantir um desenvolvimento minimamente sustentável, tendo que enfrentar, na sua avaliação, dois problemas cruciais. O primeiro: como usar racionalmente os recursos do petróleo em prol do desenvolvimento humano, e não apenas econômico. O segundo: como planejar o futuro sem petróleo. 

“Esses são os grandes desafios da geração atual e há certa urgência em enfrentá-los, diante das várias possibilidades que se abrem: as reservas se esgotarem; os royalties serem drasticamente reduzidos - o que pode acontecer nas próximas semanas -; e a irreversível transição para fontes energéticas renováveis, por conta dos eventos climáticos extremos provocados pelo aquecimento global e, consequentemente, da necessária redução de emissões de carbono na atmosfera”, diz Esteves.

No rastro da degradação ambiental, o biólogo lembra que hoje o macaense já não pode contar com a Praia de Imbetiba, bem como com a Lagoa de Imboassica, degradada pelo lançamento de dejetos industriais e domésticos. “O Rio Macaé, a região serrana e o entorno do Parque Nacional de Jurubatiba também estão sofrendo os impactos do crescimento econômico desordenado e, com certeza, outros ecossistemas serão prejudicados se não mudarmos a nossa maneira de tratar o meio ambiente”.

Ele pergunta: “Se tivermos todo este cenário de degradação sem os recursos do petróleo, como vamos gerenciar esse passivo ambiental? Tudo isso mostra como é perigoso depender de um só recurso econômico”.

O papel da UFRJ

Enquanto universidade pública, a UFRJ - prossegue Esteves - deve continuar gerando conhecimentos e disponibilizá-los para os governantes trabalharem melhor com recursos naturais. “O papel da UFRJ é exatamente ajudar a população de Macaé e região na busca de um caminho que promova desenvolvimento econômico mais compatível com a qualidade de vida”.

“Hoje nós sabemos que a busca pelo crescimento econômico não deve ser o único objetivo a ser perseguido. Temos a certeza de que a grande fábrica que irá gerar empregos em Macaé e região será o maior pedaço de restinga preservado do país, o Parque Nacional de Jurubatiba. Quando a sociedade se conscientizar do patrimônio que tem em seu território, vai transformar esse recurso natural em riqueza para o seu povo”.

Além disso, Esteves menciona as possibilidades econômicas a partir do desenvolvimento da produção de energia solar e eólica (dos ventos), fontes renováveis extremamente abundantes na região. “A sociedade precisa saber da importância de se investir em produção de conhecimento para novas energias, pois dessa forma haverá considerável redução de custos e essas fontes passarão a ser as mais importantes em meados do século XXI”.

A anunciada possibilidade de ser construído um terminal portuário em Macaé, nas imediações dos bairros Barreto e Lagomar, também preocupa o diretor do Nupem/UFRJ, tendo em vista a proximidade com os limites do Parque Nacional de Jurubatiba.  Segundo ele, o processo de licenciamento ambiental deverá ser bastante complicado: “Certamente o porto irá alterar o sistema de circulação das águas: ou o mar vai jogar areia na praia em frente ao Parque, podendo engordar a praia, ou a pior hipótese: o mar erodir parte do Parque, assoreando o porto que terá de ser continuamente dragado. Além disso, haverá riscos de sérios impactos com a poluição dos navios, lançamento de dejetos, pressão urbana etc.” 

Autor: Martinho Santafé

Foto: Wanderley Gil


    Compartilhe:


publicidade