Quem vivenciou uma noite ornamentada pela candidez de uma árvore de natal, carregada de felicidade que só o amor materno pode depositar na alma de uma criança, é capaz de apreender o mistério do nascimento do Menino-Deus. Nasceu sob o signo da vida, nasceu sob o signo da luz. Foi através da luminosidade de sua estrela que os reis magos chegaram do Oriente em Jerusalém para adorá-Lo. A estrela do Menino-Jesus os conduziu até a manjedoura, local em que a estrela parou. A tradição cristã católica manteve a dimensão religioso-poética no sentido de que os reis magos eram reis do Oriente, que foram reverenciar e adorar o Salvador do Mundo, através da luminosidade de uma estrela, como significado e reflexo da própria vida de Jesus. O florentino Leonardo da Vinci denomina sua clássica pintura do Deus-Menino, como Jesus, O Salvador do Mundo, em que se destaca é força luminosa e compadecida do olhar de Jesus. Alguns, ao escrever sobre o nascimento de Jesus, pretendem desconsiderar a virgindade de Maria e a concepção pelo Espirito Santo, o que retira toda transcendência, religiosidade e descrição poética de seu nascimento. Do nascimento à morte, nos deparamos com as humilhações, a prisão, os suplícios, a crucificação e a ressurreição de Jesus. Maria-Mãe esteve sempre presente em todos esses momentos. Esta solidariedade de Maria-Mãe com relação a seu Filho encontramos em muitas outras mães que, embora anônimas, e em circunstâncias das mais adversas e das mais difíceis da vida, protegem e amparam seus filhos e filhas, sacrificando saúde, bens materiais e, em alguns casos, a própria vida. Santa Maria, assim como seu Filho Jesus, sentiram, cada um a seu modo, um dos mais profundos sofrimentos da alma humana: o sentimento de angústia. A angústia de uma Mãe que sabia que ia perder seu filho, e angústia de seu filho Jesus, que penetrou na sua alma nos momentos que se seguiram entre a condenação à morte e a crucificação. Não foram só suplícios físicos como açoites, coroa de espinho, peso da cruz. Mas sobretudo os suplícios da alma, decorrentes da consciência de que quando chegasse ao topo do Calvário perderia a vida. Esse tempo que decorreu entre essas operações cruéis, prisão e condenação à morte, realizadas pela elite judaico-romana, são momentos indescritíveis da angústia. Este sentimento não devemos desejar para ninguém, tal a profundidade de tormentos que domina a alma humana.

Já outros historiadores e literatos afeitos ao antropocentrismo, que consideram o homem como o centro do universo, e a razão como soberana, dessacralizam o nascimento e a dimensão divina do Menino-Deus. Entendem que os reis magos eram astrônomos ou astrólogos e que, com os estudos sobre os astros, chegaram ao local do nascimento de Jesus. Como tudo que a razão conhece, conhece no tempo e espaço, o que se conclui é que os mistérios imanentes à vida ou à existência, como os questionamentos – por exemplo, por que nascemos, por que sofremos, por envelhecemos, por que adoecemos e por que morremos, e por que não somos senhores dos nossos destinos – chega-se à conclusão de que a razão é humilhada, conhece muito pouco e  não tem como responder.  Nosso grande Machado de Assis diz que há muito mais enigmas e mistérios na vida do que supõe os filósofos ou as vãs filosofia. Dostoievski dizia que não é a razão, mas dois sentimentos fundamentais que salvam o mundo: o sentimento ético a que ele considera o amor e a compaixão pelo próximo, pois quem ama, compreende e perdoa. O outro sentimento que salvará o mundo é o estético, a beleza. Portanto, ser cristão é algo simples, é respeitar a vida como manifestação de Deus em todos os seus sentidos; olhar a pessoa humana com bons olhos, não discriminar, não prejulgar, não destruir a natureza, a flora e a fauna, agradecer a Deus pelo privilégio de abrirmos os olhos, e em cada dia constatarmos o amanhecer, e em cada tarde a cor dourada dos entardeceres. É intuir, descobrir a riqueza disso que denominamos de tempo. Não fazer do tempo apenas algo cronológico, calculado para o consumo de bens materiais – ou seja, algo que empobreça o tempo. Quando se tem o tempo como gratuito, como dádiva Divina, o ato de existir ser torna prazeroso.

Entretanto, com a pós-modernidade (o medíocre mundo que vivenciamos), o ser humano se tornou escravo do consumo, e uma competitividade inútil e desmedida. Compete não para sentir o prazer humano da vitória, mas sim sentir o prazer do psicopata, sentir o prazer de eliminar o outro. É mais ou menos o que ocorre, nos dias de hoje, a nível de um mundo que se chama virtual. Um mundo que, lamentavelmente, se transformou em ofensas e xingamentos. Um mundo anticristo. Um mundo sem perdão. Um mundo niilista que reduz tudo a nada e em que, lamentavelmente, a cultura foi substituída por entretenimento vulgar, o artista por celebridade, o jornalista por blogueiro. Sempre fui apaixonado por palhaços de circo, mas quanto aos atuais da internet sobram palhaçadas e faltam a originalidade, a pureza dos circos e os sorrisos cândidos e sinceros do público. O problema do país de nossos dias não é, propriamente, político: é algo mais profundo, é algo que nasce do contraste entre civilização e barbárie.

 

Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 2020.

Por: Dr. Ronaldo Tanus Madeira.

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