Impasse tem impedido a chegada de investimentos na comunidade situada às margens da Linha Azul

Considerada uma das áreas mais carentes, comunidade sofre com falta de saneamento e abastecimento de água

Apesar de o preço dos imóveis, tanto para compra, quanto para o aluguel ter sofrido uma redução nos últimos anos devido à crise econômica, o custo da moradia em Macaé ainda é fora da realidade para muitas pessoas. Assim, muitos acabam migrando para as áreas periféricas. O reflexo disso é o aumento no número de invasões por toda a cidade, situação que, se não for controlada a tempo, pode resultar em vários problemas, principalmente no que se refere à infraestrutura.

Um exemplo de tal quadro é a comunidade Piracema, que cresceu nos últimos anos de maneira desordenada às margens da Linha Azul. Há dois anos, o Bairros em Debate esteve visitando a localidade, onde mostrou as condições desumanas em que milhares de famílias vivem. Os moradores não têm o mínimo necessário para uma qualidade de vida. Entre os problemas estão a falta de saneamento básico e da rede de água. Essa região foi uma das mais afetadas pelas chuvas que atingiram o município na semana passada. “Só lembram que a gente existe em época de eleição. Vêm, fazem promessas e nada muda. Vivemos em condições que nem bicho merece viver. Infelizmente a maioria aqui não tem condição de morar em outro lugar. Aqui eu não pago aluguel. E nem teria como, vivendo com a renda do Bolsa-Família e do pouco que ganho como diarista. Se pudesse, não pensaria duas vezes em ir embora daqui porque esperar que isso aqui seja urbanizado um dia é sonhar muito alto”, diz uma moradora, que pede sigilo do nome.

Há cerca de quatro anos, a prefeitura explicou que estudava a possibilidade de desapropriação da área, já que se trata de uma propriedade particular. No entanto, o impasse não foi resolvido, situação que impossibilita os investimentos em infraestrutura até hoje.

População com o pé na lama

Lama e poeira fazem parte da realidade da comunidade, que não recebe nenhuma atenção

Assim como acontece em outras áreas da cidade, pavimentação é algo que não existe na Piracema. Quem vive ali conta que essa situação gera muitos transtornos para os moradores. “Até mesmo para escoar a água é um sofrimento. A lama fica por dias. Agora, com essas chuvas o que estava ruim só piorou. Sempre que chove forte ficamos debaixo d’água. Dessa vez chegou a enchente, invadiu casas, pessoas perderam os seus pertences.

Tudo que a gente conquista com muito suor vai embora com as inundações. É triste, mas a gente vai se reerguendo como pode. O que importa é que todos estão vivos”, diz a moradora Maria.

É interessante ressaltar que os investimentos feitos nessa área não representam apenas melhorias na questão da acessibilidade no bairro, mas também redução nos riscos à saúde pública, promovendo, consequentemente, a melhoria na qualidade de vida dos moradores.

Quando chove, os alagamentos e a lama impedem a acessibilidade dos moradores e provocam prejuízos materiais. Já em dias de sol é a poeira que gera reclamações. Essa situação acaba contribuindo com várias doenças respiratórias e quem geralmente mais sofre são as pessoas alérgicas e as crianças.

Água é uma raridade

Apesar de a poucos metros dali, na Linha Azul, a Cedae estar implantando tubulações que irão beneficiar bairros como o Lagomar, a Piracema está longe de ser contemplada com a água encanada.

Segundo informou a Cedae na época, ela só pode fazer o abastecimento em áreas onde tenha regularização fundiária. Como a Piracema é considerada uma ocupação irregular, os moradores contam com três opções: caixas d’água comunitárias, que são abastecidas pela prefeitura, poços artesianos ou caminhões-pipa, comprados com muito sacrifício. “Hoje em dia a gente deixa de comprar um arroz ou um feijão para pagar água. Tem que se privar de algumas coisas para priorizar outras”, relata João.

De acordo com moradores, a quantidade de água que é disponibilizada pelos caminhões-pipa, nunca foi suficiente para suprir a demanda. Porém, não deixa de ser uma ajuda para aqueles que conseguem encher seus baldes.

Alguns moradores fazem uso da água de poços artesianos para as suas necessidades. Porém, a água é insalubre e acaba não sendo útil para o consumo.

 

Saneamento é um sonho distante

O saneamento é um direito assegurado pela ONU (Organizações das Nações Unidas), que diz que isso é fundamental para a redução da pobreza, melhoria das condições de vida das pessoas e para o desenvolvimento sustentável. Na Piracema, isso parece estar longe de se tornar uma realidade. De acordo com os moradores, o esgoto é todo depositado em fossas, que são limpas de vez em quando pela prefeitura.

Mesmo com a rede da Cedae a poucos metros, abastecimento não pode chegar por conta da irregularidade das terras

Não bastasse o mau cheiro, a exposição desse dejeto compromete a saúde dessas pessoas, podendo vir a causar doenças. Além disso, o esgoto contribui para diversos problemas ambientais, entre eles, a poluição do lençol freático. Ele também serve de criadouro para insetos, como mosquitos e também de ratos.

Lazer é na rua

O lazer é um item fundamental para a saúde, pois controla os níveis de ansiedade e contribui com outros fatores psicológicos e também físicos. No caso de crianças e jovens, isso é fundamental para o seu desenvolvimento.

Em uma área de vulnerabilidade social, manter as crianças ocupadas com atividades é essencial para que elas não sejam atraídas para a criminalidade. Mas, infelizmente, a rua é a única opção para os moradores da Piracema. “Não temos lazer nem aqui dentro e nem no entorno. As crianças ficam brincando na rua, infelizmente, pois não temos outra opção”, diz a moradora.

O que diz a prefeitura

A nossa equipe entrou em contato com a prefeitura, por meio da secretaria de Comunicação, ao longo da semana, no entanto, ela não se pronunciou sobre o caso até o fechamento desta edição.

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