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Mesa de brasileiro é farta em agrotóxicos

Em 04/11/2013 às 10h05


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Mais uma pesquisa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), divulgada esta semana, aponta que ainda é elevada a presença de resíduos de agrotóxicos em muitos alimentos presentes na mesa dos brasileiros. Cerca de 36% das amostras de alimentos de 2011 e 29% das amostras de 2012 apresentaram níveis insatisfatórios nessa questão, de acordo com o relatório de atividades do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA).

No ano passado, por exemplo, 59% das amostras de morango foram consideradas insatisfatórias. Nesse cálculo, pesam quesitos como a presença de agrotóxico não autorizado para o alimento analisado; uso de agrotóxico autorizado, mas acima do Limite Máximo de Resíduo (LMR); e a detecção, conjunta, de agrotóxico não autorizado e autorizado, mas acima do limite permitido. 

Das amostras de pepino, no ano passado, 42% foram consideradas insatisfatórias pela Anvisa. Para o abacaxi, o índice foi de 41%. Nas amostras de cenoura, 33% foram classificadas como insatisfatórias no ano passado.

Das amostras insatisfatórias, cerca de 30% se referem à agrotóxicos que estão sendo reavaliados pela Anvisa. Mas uma surpresa foi a presença de pelo menos dois agrotóxicos que nunca foram registrados no Brasil: o azaconazol e o tebufempirade.

Eles foram encontrados em amostras de uva. Segundo a Anvisa, isso sugere que os produtos podem ter entrado no Brasil por contrabando.
"Outro resultado de destaque foi a detecção de aldicarbe em uma amostra de arroz. Trata-se do ingrediente ativo de maior toxicidade aguda dentre todos os agrotóxicos de uso agrícola, sendo também o mais empregado, indevidamente, como raticida ilegal, sob a denominação popular de 'chumbinho'. Sua reavaliação toxicológica foi efetuada em 2006, e em decorrência deste processo, diversas medidas restritivas foram recomendadas pela Anvisa e implementadas pelo fabricante do único produto formulado até então registrado no País, que desenvolveu um programa de controle específico para este produto", cita o estudo, referente a dados de 2011.

Monitoramento
Na elaboração da pesquisa foram analisadas 3.293 amostras de alface, arroz, cenoura, feijão, mamão, pepino, pimentão, tomate e uva. A íntegra do estudo está disponível para consulta na internet, no site da Anvisa. Em 2012, 36% das amostras puderam ser rastreadas até o produtor e 50% até o distribuidor do alimento. A Anvisa explica que a escolha dos alimentos considerou dados de consumo obtidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) relativos à disponibilidade desses alimentos nos supermercados das diferentes unidades da federação e no perfil de uso de agrotóxicos.

Em nota, o diretor presidente da agência, Dirceu Barbano, afirma que "a Anvisa tem se esforçado para eliminar ou diminuir os riscos no consumo de alimentos, isto se aplica também aos vegetais. Por esta razão a agência monitora os índices de agrotóxicos presentes nas culturas. Nós precisamos ampliar a capacidade do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária de monitorar o risco tanto para o consumidor como para o produtor para preservar a saúde da população". A Anvisa coordena o PARA em conjunto com órgãos de vigilância sanitária estaduais e municipais, que realizam os procedimentos de coleta dos alimentos nos supermercados e de envio aos laboratórios para análise.

Impactos na saúde e no meio ambiente

A questão dos agrotóxicos, substâncias utilizadas em larga escala atualmente, apresenta-se como um assunto de grande discussão quanto aos impactos que pode ocasionar não apenas à saúde humana, mas também ao meio ambiente. O Brasil é o país que mais se utiliza de tais substâncias, principalmente em níveis acima dos considerados seguros. 

Segundo a Anvisa, quase um terço dos vegetais mais consumidos pelos brasileiros apresentam resíduos de agrotóxicos em níveis inaceitáveis. Como principais utilizações na agricultura, têm-se a aplicação em cultivos para prevenir doenças causadas por micro-organismos e impedir o crescimento de outras plantas que não sejam as do cultivo (também consideradas pragas).

Porém, como decorrência da utilização dessas substâncias, existem problemas graves tanto para a sociedade quanto para o
meio ambiente em si. 

Dependendo da quantidade e/ou do tipo de agrotóxico presente nos alimentos, são bastante prejudiciais à saúde humana.

Quanto ao quesito ambiental, a implicação está na contaminação de solos e águas, além de danos aos demais seres vivos, podendo levá-los inclusive à morte. 

Existem casos em que um problema resulta em outro. A contaminação de peixes, por exemplo, pode implicar em complicações à saúde humana através da ingestão da carne, uma vez que alguns agrotóxicos permanecem no alimento mesmo após o cozimento, podendo ser prejudiciais. 

Mais saudáveis

Apesar do uso exagerado de agrotóxicos, existem alternativas que contribuem para a diminuição do consumo de alimentos com tais substâncias, como por exemplo, a produção orgânica que não faz uso de qualquer tipo de agrotóxico e pode ser feita no próprio lar, apenas com um pequeno espaço de terra. Apesar de ser simples, é uma considerável opção.

Hortaliças (por exemplo, alface, couve, cheiro verde), variedades de legumes pequenos (como tomate, berinjela) e frutas (limão, laranja, acerola, por exemplo) podem ser cultivadas com bastante facilidade. 

Os agrotóxicos são utilizados em maior quantidade quando se cultivam variedades de plantas que não são adaptadas ao clima, solo ou outras condições locais ou quando se faz uma plantação de uma só espécie (a chamada monocultura, que é praticada em larga escala nos dias atuais).

Contrapondo-se a essa visão, a agroecologia, um meio ecologicamente correto e viável de se manejar e cultivar as plantas, apresenta técnicas e propostas de produção de alimentos que visam a romper com a visão atual que se tem na agricultura do Brasil (baseada na Revolução Verde). 

O cuidado com o solo, o planejamento de cultivo (visando os conhecimentos ecológicos sobre sucessão de espécies), o plantio de variedades nativas, o uso de interação entre espécies (policultura) estão entre as técnicas utilizadas no modelo agroecológico de produção. 

Assim, as plantas se desenvolvem melhor no ambiente de cultivo, ao contrário de plantas não nativas em monoculturas, que requerem maior quantidade de agrotóxicos por não estarem fortemente adaptadas às condições ambientais. 

Iniciativas para reduzir os riscos

Algumas iniciativas simples podem ajudar o consumidor a utilizar os produtos sem pôr em risco a saúde. "Clore sempre os alimentos antes de consumi-los", orienta a nutricionista Daniela Bandeira Casagrande. Segundo ela, a cloração é a iniciativa que apresenta o melhor resultado. A medida é simples e barata. Daniela explica que para cada um litro de água deve se colocar uma colher (sopa) de água sanitária.

De acordo com nutricionista, os alimentos devem ser deixados de molho nessa mistura por aproximadamente por 30 minutos.

Depois eles devem ser lavados em água corrente e estão prontos para o consumo. Daniela ressalta que todos os alimentos
(verduras, legumes e frutas) devem ser clorados, inclusive as folhas. "A mistura não queima e não estraga as folhas e pode ser usada normalmente", comenta.

Daniela salienta que usar água com vinagre não resolve o problema. "Isso é mito e não adianta. A cloração é o que obtém melhor resultado", destaca. Além da cloração, as pessoas podem retirar a casca dos alimentos, já que eles concentram a maior incidência de resíduos. Por isso, frutas, verduras e legumes que precisam ser descascados para o consumo são os mais indicados para o consumo.

Outra dica é desconfiar dos alimentos muito grandes, vistosos e brilhantes. Isso denuncia o uso de agrotóxicos e fertilizantes, já que esses produtos são usados para acelerar a produção e o crescimento. O ideal mesmo, frisa Daniela, é comprar frutas, verduras e legumes de hortas caseiras, que geralmente usam menos fertilizantes químicos, ou consumir alimentos orgânicos.

O problema é que os produtos orgânicos são caros e nem todas as famílias podem ter acesso a eles. Nesse caso, diz Daniela, a cloração é a melhor saída para minimizar o problema e garantir a saúde do consumidor.

A Anvisa e o Ministério da Saúde orientam as pessoas a se informarem sobre a origem dos alimentos que compram. Segundo Agenor Álvares, diretor da Anvisa, entre os possíveis problemas à saúde humana causados pelos agrotóxicos está o câncer. A maior parte dos casos, porém, ocorre com os trabalhadores que lidam diretamente com as substâncias.

Os perigos da Revolução Verde

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, desde a Revolução Verde, na década de 1950, o processo tradicional de produção agrícola sofreu drásticas mudanças, com a inserção de novas tecnologias, visando a produção extensiva de commodities agrícolas. Estas tecnologias envolvem, quase em sua maioria, o uso extensivo de agrotóxicos, com a finalidade de controlar doenças e aumentar a produtividade.

Para especialistas como a engenheira agrônoma Ana Primavesi, a Revolução Verde, na verdade, está eliminando os nutrientes da terra. Na agricultura, a poluição, a erosão da biodiversidade e o consumo de fertilizantes nitrogenados crescem mais que a produção. A produção de grãos multiplicou-se por quase 3 de 1960 a 2010, mas nesse período o consumo mundial de fertilizantes nitrogenados cresceu quase nove vezes;

Segundo a legislação vigente, agrotóxicos são produtos e agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, utilizados nos setores de produção, armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, pastagens, proteção de florestas, nativas ou plantadas, e de outros ecossistemas e de ambientes urbanos, hídricos e industriais.

O agrotóxico visa alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos. Também são considerados agrotóxicos as substâncias e produtos empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento.

Complexidade

O comportamento do agrotóxico no ambiente é bastante complexo. Quando utilizado um agrotóxico, independente do modo
de aplicação, possui grande potencial de atingir o solo e as águas, principalmente devido aos ventos e à água das chuvas, que promovem a deriva, a lavagem das folhas tratadas, a lixiviação e a erosão. Além disso, qualquer que seja o caminho do agrotóxico no meio ambiente, invariavelmente o homem é seu potencial receptor.

A complexidade da avaliação do comportamento de um agrotóxico, depois de aplicado deve-se à necessidade de se considerar a influência dos agentes que atuam provocando seu deslocamento físico e sua transformação química e biológica. As substâncias sofrem processos físicos, ou químicos ou biológicos, os quais podem modificar as suas propriedades e influenciar no seu comportamento, inclusive com a formação de subprodutos com propriedades absolutamente distintas do produto inicial e cujos danos à saúde ou ao meio ambiente também são diferenciados.

Autor: Martinho Santafé

Foto: divulgação


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