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Um rio chamado Imboassica

Em 06/12/2010 às 11h57 - Atualizado em 06/12/2010 às 12h00


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Minha mais remota lembrança da lagoa de Imboassica data de 1959. Meu pai decidiu passar férias em Barra de São João para praticar seu passatempo predileto: a pescaria esportiva. Barra de São João não passava de um povoado sem o mínimo conforto de um balneário da atualidade. 

Ficamos hospedados numa pensão atrás de um posto de combustível e perto da ponte antiga, hoje em ruínas. Rio das Ostras tinha apenas algumas casas em meio a uma vegetação de restinga luxuriante.
Num dia de nossas férias, meu pai quis pescar na Lagoa de Imboassica. 

Chegamos a ela depois de uma viagem num carro velho que rodou perto de uma hora sobre uma estrada de terra. Eu contava então com 12 anos de idade e me lembro como se fosse hoje de uma parada nas margens da lagoa, completamente agreste e muito mais ancha que atualmente. Lembro-me de um vago manguezal.

 Mas, acima de tudo, minha memória olfativa registrou indelevelmente um cheiro de lagoa saudável, que evapora com rapidez crescente nos dias que correm.

Numa homenagem nostálgica ao meu olfato de adolescente, empreendo uma viagem mental e sentimental àquele longínquo tempo. Retorno à Lagoa de Imboassica e não encontro mais qualquer resquício de manguezal. Por informação pessoal de Francisco de Assis Esteves, que vem estudando há anos a lagoa, cientifico-me de que nenhum manguezal foi encontrado em seu interior até o momento.

 Então, retorno ao passado que documentos e livros me relatam. Maximiliano de Wied-Neuwied, um nobre naturalista alemão que realizou uma viagem científica do Rio de Janeiro a Salvador entre 1815 e 1817 pela costa surpreendeu as margens da lagoa, em 1815, cultivadas com mandioca, arroz, café e laranja, registrando em suas águas abundância de peixes.

 Dois anos depois, Aires de Casal informou que “A Lagoa de Boacica, que fica duas léguas ao sul do rio Macaé, e mui próxima ao Oceano, tem duas mil e quatrocentas braças de comprimento, seiscentas na maior largura, e pouco fundo. É salgada, e abundante de peixe, que sobe do mar, depois que se lhe abre um esgotadouro; e recolhe as águas do córrego, que lhe dá nome, do Serraria, do Mutum, do Riacho da Alagoa, e do Riachinho.”

Repetindo as informações de Casal, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire apenas divergiu dele quanto à largura da lagoa, a que atribui 60 braças. Acrescentou, por observação sua, que ela era margeada de grandes florestas. 

O major Henrique Luiz de Niemeyer Bellegarde endossou as medidas de Casal e seus afluentes, talvez o copiando. Os dois mais importantes levantamentos cartográficos do século 19 grafam a lagoa de Imboassica como um rio cujo curso fluía na direção oeste-leste até incidir perpendicularmente sobre a costa atlântica, onde desembocaria.

 Na representação cartográfica de Bellegarde e Niemeyer, de 1865, tem-se a nítida impressão de que o córrego de Imboassica, com nascente na serra de Iriri, engorda em sua foz pelo barramento natural dela por arte do mar, transformando-a numa lagoa com comunicação intermitente com o oceano. 

Intervenções humanas posteriores teriam consolidado cada vez mais a barra, por tibieza das águas que alimentavam a lagoa.
A partir dos anos de 1970, a Lagoa de Imboassica passou por um acelerado processo de urbanização decorrente da instalação da Petrobras em Macaé para a exploração de petróleo e gás natural na plataforma continental. 

Em consequência, os setores norte e oeste da lagoa sofreram aterros para a construção de casas residenciais e comerciais. A produção de esgoto saturou progressivamente suas águas, que foram eutrofizadas. A comunicação com o mar foi sendo perdida e a lagoa, de salgada que era no século 19, transformou-se em salobra, junto à barra, e em doce, nas cercanias do rio Imboassica, no século 20. 

Aberturas antrópicas da barra em períodos de cheia provocam impactos fortes sobre o ecossistema, com a formação de fluxos em direção à antiga embocadura que disseminam material poluente retido nas margens. Deve-se levar em conta igualmente a brusca redução do volume d’água, o choque salino e térmico. Tais transformações acabaram por suprimir progressivamente as condições para a existência de bosques de manguezal na lagoa.

Mas quem diria que o pujante rio Imboassica, está reduzido a uma vala melancólica que serve atualmente de limite entre os municípios de Macaé e Rio das Ostras? Faz tempo venho defendendo a restauração e a revitalização de rios. 

No entanto, creio que perdemos o belo rio Imboassica para sempre. E as perspectivas para a Lagoa de Imboassica não são mais promissoras.

Autor: Arthur Soffiati | Professor e Ambientalista

Foto: Wanderley Gil


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