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A Vida da Lagoa de Imboassica

Nascimento, Vida e Morte da Lagoa de Imboassica

Em 28/11/2010 às 16h34


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A Beleza de Hoje

A Lagoa de Imboassica é uma das mais belas ornamentações das redondezas de Macaé. Contemplar o entardecer em suas margens, apreciando as montanhas ao fundo, é compartilhar com Deus um pedacinho do paraíso.  Esse maravilhoso espelho d'água se posiciona, estrategicamente, entre a agressividade do mar à sua frente e a quietude das colinas às suas costas.

Ao caminharmos sobre o cordão de areia que a separa do mar, podemos perceber o enorme contraste entre a fúria das ondas de um lado e a serenidade da lagoa do outro. Nesse contexto litorâneo, ela se interpõe como o elemento natural que busca harmonizar, de maneira graciosa, o continente com o mar.

O Trabalho de Ontem

A natureza, com toda a sua paciência, levou um bom tempo para moldar o que é hoje a nossa Lagoa de Imboassica.  A história começa há algumas centenas de milhares de anos, com a implantação de um curso fluvial que por aí passava, alargando seu vale e levando suas águas e sedimentos para um mar que se encontrava a uns 100km de distância, lá pela altura dos campos de Pampo e Enchova.

Durante um período de nível de mar baixo, entre 12 e 20 mil anos atrás, o Rio Imboassica deveria receber como um de seus afluentes o rio que drenava o vale do Balneário das Garças e daí iria confluir com o Rio Macaé, lá pelas proximidades do atual Arquipélago de Santana. Há 17 mil anos, um aquecimento global causou o derretimento de parte das calotas polares, o que fez o volume de água do mar subir vertiginosamente.

Por volta de 10 mil anos atrás, os vales da região estariam severamente inundados pelo mar, com a desembocadura do Rio Imboassica ficando represada na posição da atual lagoa, formando ali um pequeno estuário.

Ele estaria ligado a um estuário mais amplo, formado na atual Planície do Rio Macaé. Nessa época, extensos manguezais devem ter dominado a paisagem ao redor, ocupando as áreas onde atualmente encontram-se a Linha Verde, a Linha Vermelha, Campo do Oeste e Balneário das Garças, entre outras.

O nível do mar atingiu seu máximo há 7 mil anos atrás, quando então foi completamente afogado o estuário Imboassica, resultando ali, numa enseada marinha, alagando também as áreas adjacentes onde encontravam-se os manguezais. As colinas à retaguarda passaram a receber o embate direto das ondas. Tornaram-se, assim, verdadeiras falésias, como os costões rochosos de Búzios.

A abrasão marinha abriu caminho para o solapamento das encostas, o que lapidou um alinhamento de morros de bordas abruptas que observamos desde o loteamento São Marcos até o Morro de Santana. É no sopé dessas paleofalésias que se instalou a linha férrea de hoje.

O Nascimento da Lagoa

Entre 5 e 3 mil anos atrás, o mar baixou cerca de 4 metros, abandonando os costões, deixando-os como falésias fósseis. A barra de areia aflorou e se estabilizou, individualizando definitivamente a lagoa como tal. A partir de então, o corpo d'água assim formado passou a viver um regime lagunar de semi-isolamento. A comunicação natural com o mar obedecia a ciclos regulares.
Durante as cheias fluviais, a lagoa transbordava 
naturalmente, escoando seu excesso de água e de vida para o mar, cumprindo assim sua função de criatório de peixes e crustáceos. Numa freqüência bem menor, a barra pode ser rompida por vagalhões extraordinários, ondas anormalmente altas, até maiores do que 10 metros, ligadas às chamadas tempestades seculares.

Desse modo, funcionou a lagoa nesses últimos 3 mil anos, entre tempestades e calmarias, fornecendo ao mar vida em abundância. Enquanto isso, o processo de assoreamento se dava sem pressa, no ritmo que a natureza gosta. A ocupação indígena se deu talvez por volta de mil anos atrás. As lagoas da região foram uma das principais fontes de alimentação desses povos, existindo registro de sambaquis pré-colombianos nas proximidades de várias dessas lagoas.

A Agonia de Agora

Com a ocupação urbana do homem moderno, vieram os problemas. O primeiro deles foi a ocupação indevida do alvéolo da lagoa, através de aterros que invadiram áreas que pertenciam naturalmente ao corpo d'água. 

Quando o nível da lagoa sobe, e ela pede de volta essas áreas que eram suas, a população se vê obrigada a fazer a abertura forçada da barra, esgotando as águas para o mar, em hora geralmente imprópria, quando os alevinos ainda não se encontram prontos para ganhar o mar aberto. Esses esgotamentos catastróficos quebraram toda a dinâmica natural do ciclo de vida da lagoa. 

Outro problema sério está na descarga de esgotos "in natura" que a lagoa recebe dos bairros adjacentes. Isso vem ocasionando o processo de eutrofização da lagoa, que leva a uma desoxigenação de suas águas, com a conseqüente morte de peixes e crustáceos. 

A abundância de nutrientes trazidos pelos esgotos ocasiona, inicialmente, uma explosão de vida na lagoa. Com o excesso de organismos morrendo, o processo de decomposição passa a consumir tanto oxigênio, que as águas do fundo passam a ficar pouco oxigenadas, restringindo as condições de vida e depositando uma lama orgânica, enriquecida pelo venenoso ácido sulfídrico.

O Que Será Amanhã?

Uma boa forma de antevermos o futuro da Lagoa de Imboassica é observarmos a situação em que se encontra o Balneário das Garças. Trata-se de um alagadiço recém assoreado, de alguns séculos pra cá. Já foi uma lagoa do porte de Imboassica, porém mais rasa.

À medida que a lagoa se transforma num pântano, ocorre uma sucessão ecológica sobre a barra que a separa do mar, passando pelos estágios de vegetação herbácea, arbustiva e arbórea. Imboassica tem hoje uma barra móvel sem cobertura vegetal, enquanto no Balneário das Garças encontramos uma barra vegetada no estágio mais evoluído, apresentando uma exuberante Mata de Restinga.


 Qualquer lagoa apresenta um tempo de vida útil. Afinal, ela é uma bacia para onde convergem os sedimentos de suas margens.

No entanto, esse processo está sendo brutalmente acelerado pelo homem na Lagoa de Imboassica. As aberturas forçadas de sua barra forçam a movimentação de sedimentos no leito da bacia lagunar, provocando o rastejamento desse material em direção à sua barra. Isso abre espaço para a entrada de mais sedimentos trazidos pelo rio e das encostas adjacentes, já tão pontuadas por focos de erosão.

Os desmatamentos da área remontam aos tempos coloniais. Assim, temos um processo de assoreamento super-intensificado, encurtando a vida útil da lagoa.

 Uma estimativa preliminar permite arriscar que a lagoa teria condições de durar até uma dezena de milhares de anos, ou seja, ainda mais uns 3 a 5 mil anos. No entanto, no atual ritmo de assoreamento, a lagoa poderá ter sua vida encurtada para alguns poucos séculos ou mesmo apenas décadas. Podemos avaliar a velocidade desse assoreamento quando percorremos o vale do Rio Imboassica.

O desmatamento secular de suas margens já o colocou num estágio avançado de tamponamento de seu leito e de estagnação de suas águas. Vale lembrar que a situação ambiental é o reflexo da consciência da comunidade que habita aquele local. A revitalização de nossa ainda bela Lagoa de Imboassica depende de atitudes concretas de nossa parte. Mãos à obra.


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